alberto ferreira
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da grande fantasia de 1869 à dura realidade política de 2017

o violão de álvaro henrique “acorda” nosso sentimento de cidadania com a música militante de jorge antunes

o recital de violão do brasiliense álvaro henrique neste sábado, dia 27 de maio, no auditório umuarama do instituto cpfl de cultura, em campinas, apresenta um grande painel histórico de músicas criadas em torno do conceito de cidadania. vai do ufanismo à dura consciência política dos acontecimentos da história recente do país.

os destaques:

  • estreias mundiais de peças do ciclo brasília 50 de jorge antunes referentes ao período 1976-1979: jkondor (1976); pacote de abril (ernesto geisel) (1977); revogação do ai-5 (general figueiredo) (1978); e 1979: lei da anistia.
  • ele começa com o compositor-pianista norte-americano louis moreau gottschalk, que em 1869 desembarcou no rio de janeiro imperial. para faturar o máximo possível, decidiu afagar o povo brasileiro e principalmente dom pedro ii com sua grandiloquente e ufanista “grande fantasia triunfal sobre o hino nacional brasileiro” [escrito por francisco manuel da silva em 1831], para piano solo. a peça sobrevive até hoje porque a grande pianista guiomar novaes adotou-a como seu extra preferido em recitais mundo afora. a versão para violão foi feita pelo próprio álvaro henrique.

fora das salas de concerto, a cidadania vem sendo usurpada com mais frequência do que seria desejável. duas peças do recital retratam duas visões da capital brasília:

  • “a pequena suíte candanga”, de mário ferraro, evoca a construção e os primeiros tempos ainda tranquilos da nova capital, entre 21 de abril de 1960 e o início de 1964, incluindo até a canção favorita do presidente juscelino kubitschek, “peixe vivo”.
  • a peça mais ambiciosa e impactante do recital é uma “work in progress”, ou seja, vem sendo composta desde 2010 pelo notável compositor jorge antunes, de 75 anos. antunes é pioneiro da música eletroacústica no brasil. quando concluída, “brasília 50” será uma coleção de mais de 50 miniaturas para violão e sons pré-gravados. antunes começou sua composição logo depois do 50º. aniversário da cidade. cada peça inspira-se num evento histórico acontecido em brasília numa cronologia ano a ano.
  • álvaro henrique toca as primeiras 20 peças – as últimas quatro serão mundialmente estreadas no recital de amanhã (27): 1960 leva o título inauguração de brasília: niemeyer e kubitschek. 1969 mistura trechos da transmissão do milésimo gol de pelé com transmissões do homem na lua. 1964 leva o título golpe militar, assim como 1968 intitula-se ai-5, referência ao ato institucional no. 5 que suspendeu as liberdades democráticas no país. dois assassinatos emblemáticos também são lembrados: 1971: assassinato de lamarca; e 1975, assassinato de vladimir herzog, a décima sexta peça do ciclo previsto para 50, cobrindo o primeiro meio século da vida de brasília.

relação das peças ano a ano:
brasília 50, para violão e tape (2009 – ) jorge antunes (1942 – )
1960 – inauguração de brasília: niemeyer e kubitschek
1961 – renúncia de jânio quadros
1962 – fundação da universidade de brasília: darcy ribeiro
1963 – assassinato do presidente kennedy
1964 – golpe militar
1965 – guerra do vietña e ai-2
1966 – fechamento do congresso nacional
1967 – posse do presidente costa e silva
1968 – ai-5 caminhando e cantando
1969 – homem na lua, milésimo gol de pelé
1970 – brasil campeão mundial
1971 – assassinato de lamarca
1972 – guerrilha ingenuína
1973 – desaparecimento de honestino
1974 – revolução dos cravos
1975 – assassinato de vladimir herzog
1976 – jkondor (morte de jk) +
1977 – pacote de abril (ernesto geisel) +
1978 – revogação do ai-5 (general figueiredo) +
1979 – lei da anistia +
+estreia mundial