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frases de pierre boulez (1925-2016)

ditos de um dos maiores compositores/regentes de sua geração

O compositor francês Pierre Boulez (1925-2016) transformou a música do século 20 abolindo as fronteiras entre música e ciência, música e tecnologia. Concebeu e inaugurou em 1977 em Paris o IRCAM. Ensinou-nos que tecnologia é conhecimento aplicado. As músicas e os músicos contemporâneos sabem disso por causa dele.

Quando afirmou, décadas atrás, que todo compositor precisaria ser também um cientista se quisesse atribuir algum sentido atual à sua criação, muita gente estrilou. Ele estava coberto de razão.

Em vez de banalizar sua música, ele adotou uma terceira via, a batuta, para chegar ao grande público. Sua regência de orquestra, que abraçou nos anos 50, era diferente. Jogava novas luzes sobre obras contemporâneas e do passado recente.

Uma regência analítica, minuciosamente atracada com o texto musical. Estabeleceu padrões até então inéditos de execução. A indústria musical enxergou no novo “maestro” possibilidades mercadológicas intere$$antes.

O Anel de 1976 com Chereau em Bayreuth; os seis anos à frente da Filarmônica de Nova York; o magnífico trabalho com a Academia no Festival de Lucerna; e muitas gravações – este foi o roteiro de uma fama maior no pódio do que como compositor junto ao público de concerto.

Suas frases eram tão demolidoras quanto sua música é hostil a uma primeira audição, mas de excepcional qualidade criativa:

“Frequentemente querem estabelecer uma divisão estanque entre teoria e prática de uma arte: antigas separações de fundo e forma, ensaios e obras, que uma tradição acadêmica quer ciumentamente preservar. A situação de um criador é mais complexa do que esta distinção acadêmica supõe; tal segregação de suas diversas atividades não parece defensável se pensamos em todas as interferências que tendem a se manifestar sob o simples signo da imaginação”.

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“Detonem as casas de ópera”

[Costuma-se citar apenas o slogan acima. Mas, para entendermos melhor esta afirmação explosiva, é preciso contextualizá-la. Um repórter da revista alemã Der Spiegel  perguntou-lhe em 1967 se sua ideia de teatro musical moderno poderia se concretizar numa casa de ópera convencional. A resposta completa de Boulez é esta:]

“Definitivamente, não. […] Num teatro em que se montam predominantemente peças de repertório, só com enorme dificuldade se pode apresentar óperas modernas – não é digno de confiança. A solução mais cara seria mandar as casas de ópera pelos ares. Mas o senhor não acha também que seria a mais elegante?”

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“O maestro-instrumentista tem maiores condições de entender melhor a obra, já que ele tem sobre ela um domínio físico, muscular. Schoenberg dizia ‘eu ouvi minha obra ao menos uma vez, quando a escrevi’. Neste momento o compositor tem uma certa consciência da obra, mas de modo abstrato. Ele ainda não domina o desenrolar da obra no tempo. Eu só fico pessoalmente à vontade com uma obra que compus depois que a regi várias vezes: é somente neste momento que a domino de cabo a rabo. O trabalho do intérprete é tocar e tocar de novo frequentemente as mesmas obras, descascá-la pedagogicamente para si próprio. Ao contrário, quando o compositor termina sua obra, já não lhe interessa refazer necessariamente sem cessar o percurso, porque quer passar para outra coisa.”

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“Eu me interpreto de uma certa maneira, mas provavelmente, no futuro, outros intérpretes terão maior intimidade com minha obra do que eu mesmo.”

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“Ele [o compositor] teve o trabalho de escrever atenta e minuciosamente suas intenções – até onde a escrita permite – e não posso tratá-lo superficialmente. Tento obter uma execução tão próxima quanto possível de minha leitura da partitura, examinando-a em seus detalhes, sem perder de vista sua trajetória de conjunto. Sei, afinal de contas, como é muito mais difícil compor do que reger…”

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