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há 100 anos a música era assim [capítulo 6]

obras importantes de 1917: o melhor villa-lobos? amazonas e uirapuru

UIRAPURU

Em 1917, Heitor Villa-Lobos (1887-1959) compôs duas de suas obras-primas para orquestra – “Amazonas” e “Uirapuru”. Como escreve Vasco Mariz em sua biografia do compositor, irmãs gêmeas, são diametralmente opostas. “Em Uirapuru, transparece a poesia dos bosques virgens do Brasil; em Amazonas, o espírito da selvageria, onde a orquestra, para repetir Mário de Andrade, ‘avança arrastando-se penosa, quebrando galhos, derrubando árvores, tonalidades e tratados de composição’.”

O argumento deste poema sinfônico é do próprio Villa: conta a história de um pássaro (o uirapuru, que na mitologia indígena é considerado o ‘deus do amor’) que se transforma em um belo índio, disputado pelas índias que o encontram. Um índio ciumento, não suportando aquela adoração, flecha-o mortalmente. Ao retornar à sua condição de pássaro torna-se invisível e dele se ouve apenas o canto que desaparece no silêncio da floresta. É música sinfônica refinada, com uma fina exploração de timbres.

A execução é da Filarmônica Nacional Húngara, e o regente Zóltan Kocsis, morto aos 66 anos em 2016, foi também um excepcional pianista. Dedicou-se fundamentalmente à divulgação da obra de Bela Bartok (gravou a integral de sua obra para piano) e por esta via chegou a Villa-Lobos, cujas obras regeu com frequência em Budapeste.

AMAZONAS

Igualmente composta em 1917, Amazonas contém efeitos orquestrais surpreendentes e audaciosas combinações de timbres. Emprega o violinofone e a viola d’amore como instrumentos solistas.

Mário de Andrade escreveu um texto bem humorado e que define bem este poema sinfônico esfuziante: É a música da natureza “aprendida com os passarinhos e as feras, com os selvagens e os tufões, com as águas e as religiões primárias. Música da natureza, junto da qual a Sexta Sinfonia de Beethoven ou o Siegfried de Wagner (não como beleza, está claro, mas como significação cósmica) não passam de amostras bem educadinhas da natureza, para expor nas vitrinas, natureza já comercializada, limpinha e vestida na civilização cristã” (no livro “Música, Doce Música”, de 1932).

Depois de Amazonas, disse Villa, “perdi o pudor e a timidez de escrever coisas arrojadas”.

A versão que você ouve agora no youtube traz o maestro brasileiro Ricardo Averbach à frente da Orquestra Sinfônica e Coro da Rádio Búlgara:

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