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a música do século 20 vai ao cinema

de prokofiev e shostakovich a schnittke e philip glass, momentos decisivos do encontro das músicas do nosso tempo com a telona

1) Dmitri Shostakovich (1906-1975): em 1964, ele compôs a música para o filme “Hamlet”, baseado na tragédia de Shakespeare e dirigido por Grigori Kozintsev. Um depoimento do cineasta retrata bem o talento de Shostakovich para trilhas sonoras (ele compôs dezenas de trilhas ao longo da vida, sempre que caía em desgraça no regime de Stalin e era obrigado a fazer música de subsistência):

“Shostakovich jamais se ofendia quando eu lhe pedia para escrever exatamente 1 minuto e 30 segundos de música, e lhe pedia para diminuir o volume da orquestra no 24º segundo, e elevá-lo novamente no 52º segundo, para sincronizar com um tiro de canhão. A arte que é encomendada e funcional não precisa ser necessariamente ruim”.

Esta performance de 1974 mostra outro compositor famoso por suas trilhas para Hollywood, o norte-americano Bernard Herrmann (1911-1975), parceiro predileto de Orson Welles, Hitchcock e Scorsese, regendo a Filarmônica Nacional numa suíte retirada da trilha sonora de Shostakovich:

2) Sergei Prokofiev (1891-1953): Em 1938, o compositor russo escreveu a trilha sonora de um dos maiores clássicos do cinema, “Alexandre Nevsky”, dirigido pelo grande diretor Sergei Eisenstein. O drama histórico conta a tentativa de invasão de Novgorod no século 13 pelos sacerdotes teutônicos do Sacro Império Romano e sua derrota pelo príncipe Alexander, conhecido popularmente como Alexander Nevsky (1220-1263).

O filme nasceu como ferramenta de propaganda do estalinismo. Mas raramente música e cinema se juntaram de modo tão sensacional. Uma parceria única.

Você pode assistir ao filme na íntegra, com legendas em inglês abaixo:

Ou então a suíte completa com a mezzo-soprano Elena Obraztsova, Coro e Orquestra Sinfônica de Londres, regidos por Claudio Abbado:

3) Alfred Schnittke (1934-1998): o compositor tido como sucessor de Shostakovich na União Soviética compôs, entre 1961 e 1984, mais de 60 trilhas sonoras para o cinema russo – era a saída para os criadores musicais que caíam em desgraça junto ao regime por não obedecerem aos preceitos estéticos do realismo socialista. Como ele se notabilizou pela postura que chamou de “poliestilística”, onde cabiam todos os estilos musicais, do presente e do passado, não teve problemas de escrever para a telona.

Na música que compôs para o filme de 1976 “A História de um Ator Desconhecido”, dirigido por Alexander Zarkhy, Schnittke emprega uma mesma melodia sentimental por praticamente todas as treze cenas – e revive, século e meio depois, a célebre “ideia fixa” que Berlioz usou como fio condutor de sua “Sinfonia Fantástica”, de 1830.

Ouça no youtube esta boa execução, de orquestra e regentes:

4) Aaron Copland (1900-1990): Um dos grandes compositores norte-americanos do século 20, flertou com o comunismo nos anos 30 de modo radical. Um exemplo deste engajamento político é, por exemplo, a conhecidíssima “Fanfarra para um homem comum” (o comum do título refere-se ao homem anônimo norte-americano que sofreu na carne os efeitos da grande depressão que o país viveu na década de 1930).

Em 1939, compôs a música para um documentário de curta- metragem intitulado “The City”, idealizado e produzido por Catherine Bauer para a Feira Mundial de Nova York como parte da exposição “A cidade do amanhã”. The City foi adaptado por Lewis Mumford a partir de texto de Pare Lorentz, e dirigido por Ralph Steiner e Willard Van Dyke, com música de Copland.

Vale a pena assisti-lo na íntegra – são 31 minutos:

E vale também a pena conhecer a Fanfarra para um homem comum na performance memorável da Osesp regida por Marin Alsop no PROMS, o festival londrino de verão de 2014:

5) Gyorgy Ligeti (1923-2006): um dos mais importantes compositores do século 20, o húngaro Ligeti ficou famoso pelo fato de o cineasta Stanley Kubrick ter utilizado sua música em alguns de seus filmes. Anote este detalhe: Ligeti não compôs música para cinema, o cinema é que usou sua música de invenção como trilha sonora. E de modo magistral, como é o caso de Kubrick. Ele usa “Atmosphères”, obra de 1961, e “Lux Aeterna”, de 1966, em “2001: uma odisseia no espaço”.

Atmosphères é escrita para grande orquestra mas sem percussão, e esgota a exploração de texturas sonoras, sem o uso de eletrônica. Começa com um acorde consonante tocado, numa extensão de cinco oitavas, por todos os instrumentos da orquestra. Ondas sonoras vão tomando conta dos nossos ouvidos:

E também ouça “Lux Aeterna”, peça vocal de Schnittke, igualmente consonante. Cultiva um estado de contemplação zen que em geral se associa ao “estar no espaço”:

6) Philip Glass (1937): Ao lado de Steve Reich, Philip é um dos pioneiros e papas do minimalismo, movimento musical que promoveu, a partir dos anos 60, um retorno a uma música ritmicamente acessível, que abriu novas fronteiras para a música contemporânea, fazendo-a chegar aonde estão nossos ouvidos.

Glass compôs a trilha de “As Horas”, filme de 2002 baseado num romance de Michael Cunningham. O livro observa a vida de três mulheres a partir do romance de Virginia Woolf “Mrs. Dalloway” (que provisoriamente tinha o título de “As Horas”). Glass busca captar – e consegue – o clima de emoção concentrada que permeia o filme inteiro.

Esta trilha vem influenciando de modo impactante dezenas de outros importantes compositores de trilhas sonoras dos últimos quinze anos.

Ouça a trilha completa abaixo: