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“água que não soa não é boa” (fernando pessoa)

uma playlist inteiramente dedicada a água, elaborada pela pianista thais nicolau

Com foco em compositores do século 20, esta coleção de obras explora o elemento da natureza que cobre a maior área de nosso planeta, compõe maior parte de nosso próprio corpo e serve de grande inspiração para as artes: a água. Nesta playlist, os sons da água retratam a versatilidade deste elemento em suas diversas formas e a criatividade de compositores ao transformarem seus sons em forma de música. (Thais Nicolau, pianista e curadora dos concertos do 1º. Semestre de 2017 no Instituto CPFL de Cultura)

1.  La mer (O mar) de claude debussy (1862-1918), é sem dúvida a obra mais conhecida quando se trata do uso descritivo da música para representação do oceano. Nesta obra-prima orquestral, Debussy utiliza uma grande variedade de timbres, cores, texturas e combinações geniais de grupos de instrumentos para ilustrar movimento das ondas, ventos e a contemplação do ambiente marítimo em seus três movimentos:

I. De l’aube à midi sur la Mer (Da Alvorada ao Meio-dia no Mar)

II.  Jeux de Vagues (Jogo das Ondas)

III. Dialogue du Vent et de la Mer (Diálogo do Vento com o Mar)

2. Elegia para o Ártico (Elegy for the Arctic) de Ludovico Einaudi (1955), não só representa, mas também interage com os sons das geleiras. Nesta gravação, tocada pelo próprio compositor numa geleira em Svalbard, na Noruega, a música ilustra os contrastes entre quietude e isolamento do local e momentos de tensão caraterizados pela movimentação e derretimento das geleiras.

3. Rios, composta por Almeida Prado (1943-2010) em 1976, foi inspirada no mito de “Iamulumulu: a formação dos rios” dos índios do Xingu. Segundo o compositor, “a magia telúrica do texto me motivou emocionalmente a entrar no mundo do mistério e da encantação, e me deixar envolver impressionado e totalmente, realizando a minha expressão sonora, dentro do mundo mítico do Xingu” (texto do encarte do CD do pianista Antonio Barbosa, 1981)

A obra se divide em três partes:

I. As águas de Canutsipém

II. Jakui Katu, Mearatsim, Ivat, Jakuiaep, os espíritos que habitam o fundo das águas

III. A descida das águas e a formação dos Rios Ronuro, Maratsauá e Paranajuva

4. Em direção ao mar (Towards the Sea) de Tōru Takemitsu (1930-1996), compositor japonês, foi composta como parte de uma campanha de conscientização e proteção às baleias. A obra é dividida em três partes – A noite, Moby-Dick e Cape Code, onde o compositor retrata o mar como criador, revelando a espiritualidade do romance de Moby Dick e encerrando com uma referência a Cape Code, baía na costa leste dos Estados Unidos que foi um grande centro da indústria baleeira nos séculos 18 e 19.

Esta gravação reproduz a primeira versão da obra, para violão e flauta contralto, e mostra como Takemitsu usou as letras da palavra SEA, por meio da notação musical alemã (S = mi bemol, E = mi natural, A = lá natural) e a transformou no motivo principal que unifica os três movimentos.

5. Os Quatro Interlúdios do Mar (Four Sea Interludes) de Benjamin Britten (1913-1976) são interlúdios orquestrais parte de sua primeira ópera, Peter Grimes.  Os interlúdios – Amanhecer, Manhã de domingo, Luar, Tempestade – resumem a narrativa do libreto sobre um pescador da costa leste da Inglaterra que se vê perseguido pelas pessoas da cidade após as misteriosas, mas acidentais, mortes de dois de seus aprendizes. A música reflete as emoções da história, desde a contemplação da paisagem marítima à sua transformação em agitação e tormenta no desenrolar dos acontecimentos.

6. Jonchaies, escrita em 1977 pelo compositor grego Iannis Xenakis (1922-2001), é obra de extrema intensidade e requer 109 músicos para sua performance. Xenakis explora diferentes timbres e texturas da orquestra de forma sistemática, retratando diversos momentos de uma grande tempestade que enfrenta depois de se aventurar mar aberto ao sair de um ilha no mediterrâneo.

7. Escrito na primeira década do século 20, o Lago Encantado (Enchanted Lake), de Anatoly Liadov (1855-1914), apresenta características da escrita do romantismo tardio com uma obra fortemente pitoresca, descrevendo um quadro das águas profundas, serenas e místicas de um lago das paisagens nórdicas da Noruega.

8. Jeux d’eau de Maurice Ravel (1875-1937), Jogo das águas, é uma das obras para piano mais conhecidas do compositor francês e foi inspirada na obra de Franz Liszt Les jeux d’eau à la Villa d’Este (O jogo das águas da Villa d’Este), também para piano solo  Aqui, a ideia de “jogar” é representada pelos movimentos da água, remetendo a imagens sonoras da deste elemento por meio do uso de diversas texturas e o registro completo do piano.

9. Töru Takemitsu (1930-1996) representa a água em seus vários estados e planos. Em Árvore de chuva (Rain Tree), o compositor ilustra as gotículas que caem do céu, primeiramente solitárias e silenciosas, cuidadosamente crescendo com tons repentinos e dissonantes usando apenas instrumentos de percussão para caracterizar o cair da chuva e os galhos encharcados de água.