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haendel, o hendrix do século 18 (ou hendrix, o haendel do século 20)

inaugurado em 10 de fevereiro de 2017, um novo museu em londres transformou os dois endereços da brook street, nº 23 e 25 em sua casa. leva o nome de handel & hendrix in london. fãs dos dois podem ver como os dois gênios viveram naqueles endereços hoje igualmente ilustres. e assistir e participar de concertos, shows, debates, sempre centrados em haendel e hendrix.

George Frederic Handel viveu 47 anos em Londres, desde 1712. Por 36 anos morou no chique bairro londrino de Mayfair, no número 25 da Brook Street, onde morreu em 1759, aos 74 anos. Duzentos e dez anos depois, na casa vizinha, número 23, morou o maior guitarrista pop que o mundo conheceu, Jimi Hendrix, que em seguida morreria de overdose, aos 27 anos. A casa do autor do oratório “O Messias” transformou-se na Handel London Society, e ganhou a famosa placa azul de bronze em sua fachada.

ouça “Rejoice Greatly”, ária do oratório “O Messias”, com a soprano norte-americana Renée Fleming:

e o coral mais famoso do oratório, o Aleluia, que provocou no rei George II o gesto de se levantar – até hoje todo o público levanta-se e ouve de pé este coral. Esta versão legendada que você assiste agora tem como intérpretes o Coro do King’s College da Universidade de Cambridge e a Academy of Ancient Music regidos por Stephen Cleobury na Capela do King’s College (em Cambridge, Inglaterra) na Páscoa de 2009:

Dezenove anos atrás, porém, o guitarrista Pete Townshend batalhou para conseguir colocar uma placa azul oficial de bronze homenageando os pouco mais de doze meses, entre 1968 e 1969, em que Hendrix lá viveu (foi num estúdio londrino que ele gravou pouco antes Electric Ladyland, considerado por muitos o maior álbum pop de todos os tempos). Houve chiadeira dos dois lados.

A Handel Society considerou o episódio insultante — tentou, mas não conseguiu, arrecadar fundos para comprar a ex-casa de Hendrix e ampliar a Handel House Museum.

Townshend decretou: “Um roqueiro como Jimi Hendrix merece sim ser homenageado na casa ao lado da de Georg Frederic Handel. Ele está para mim no mesmo nível de Miles Davis e Charlie Parker, como alguém que era virtuose, inovador. Ele era diferente, extraordinário e novo”.

Ele poderia ter incluído o próprio Haendel como modelo dos cinco adjetivos que empilhou para elogiar Hendrix. Haendel foi “virtuose, inovador, diferente, extraordinário e novo” por cerca de meio século na Inglaterra. Ele foi com certeza o Jimi Hendrix da primeira metade do século 18: dominou a vida musical inglesa por meio século, seduzindo o grande público primeiro com a ópera, depois com o oratório.

Além disso, negociou com extrema habilidade os favores da realeza no poder, fosse ela qual fosse naquele meio século. E teve a ousadia suprema de retirar letras profanas de árias de óperas e colocar letras bíblicas, inserindo-as em seus oratórios.

Isso não é o mesmo que Hendrix fez, dois séculos depois, com o hino nacional norte-americano em agosto de 1969 no Festival de Woodstock?

Musicalmente, Haendel foi um assombro. Virtuose incontestado do órgão, foi o primeiro a compor concertos para o instrumento — uma das dezenas de inovações que introduziu na música de seu tempo. Haendel também era extraordinário, porque não tinha medo do novo. Depois da infância e adolescência passada na pequena cidade alemã de Halle, onde nasceu em 1685, passou uma iluminadora temporada na Itália antes de se estabelecer definitivamente em Londres, em 1712.

Lá assumiu-se como inglês. Ou melhor, como o mais perfeito compositor de ópera italiana ao gosto inglês. Jamais perdeu um sotaque horrível ao falar inglês, mas, oportunista, retirou o trema de seu nome – Händel virou Handel, a fim de torná-lo mais friendly para seu novo país.

Foi um dos mais atrevidos empreendedores da progressista Londres do início do século 18: montou sua própria companhia de ópera, ganhou e gastou muito dinheiro, compôs e montou 48 óperas até 1739, quando chegou à beira da falência por causa de repetidos insucessos e feroz concorrências dos italianos lá sediados.

Com um faro infalível de mercado, viu no oratório (uma espécie de ópera sacra com temas bíblicos interpretada sem encenação) a sua salvação, senão religiosa, ao menos terrena. Quando o próprio rei George Ii levantou-se no coral Aleluia do oratório O Messias, a consagração religiosa e de público foi inevitável. Foram 24 oratórios em seus últimos 18 ricos anos de vida.

Isso, em definitivo, transformou-o em glória nacional. Mais ainda: os ingleses apropriaram-se dele — e Haendel é tido e havido como o grande compositor inglês do século 18, uma simpática e dupla meia-verdade.

Primeiro, porque ele era alemão; e, segundo, porque, da sua diversificada produção musical, os ingleses fixaram-se apenas nos oratórios e os transformaram em símbolos britânicos, bandeiras da nacionalidade. Daí os gigantescos festivais Haendel que se perpetuaram até relativamente pouco tempo [a vida coral baseada na sua música permanece viva no Reino Unido], com corais de vários milhares de vozes e centenas de instrumentistas massacrando os grandes corais de oratórios como O
Messias e Judas Maccabeus, entre outros.

De seu lado, Jimi Hendrix receberá um tributo no museu londrino que divide com Haendel (Handel & Hendrix in London) no próximo dia 18 de agosto – no exato dia em que o maior guitarrista de todos os tempos impactou o mundo em 1969 com sua performance no Festival de Woodstock: