Playlists > mundos que colidem

mundos que colidem

playlist de joão luiz sampaio mostra que as óperas do século passado dialogam com o tempo de hoje

por joão luiz sampaio, curador da série “De Bach a Villa-Lobos (e vice-versa)”, dos próximos meses de Agosto e Setembro na CPFL

Perda de identidade, civilizações em choque, preconceito, acumulação de capital, crise de valores, corrupção, a banalidade da morte, do conceito de justiça. A ópera do início do século 20 tratou desses temas em um momento no qual a sensibilidade romântica era deixada para trás perante os desafios de um novo mundo que se descortinava muito rapidamente – e no qual o ser humano sentia-se perdido.

A relação com este confuso início de século 21 não é mera coincidência – e um olhar sobre o que os compositores faziam naquele período, para além dos blockbusters de Giacomo Puccini e Richard Strauss, não apenas joga luz sobre questões atuais como ajuda a colocar por terra a ideia da ópera como um gênero alienado, distante das grandes questões da humanidade.

1. Der Zwerg (O Anão), de alexander zemlinsky

Escrita na última década do século 19, a ópera narra a história de um anão que passa a vida toda sem conhecer a própria imagem – até que, ao declarar seu amor pela Infanta, é colocado perante um espelho. Uma metáfora contundente a respeito da descoberta de um “eu” fraturado, que abandona a idealização em nome da realidade, como mostrado na cena abaixo, de uma montagem do Theatro São Pedro.

2. O Cavaleiro Avarento, de Sergei Rachmaninov

Em 1910, o russo Sergei Rachmaninov resolveu adaptar a comédia satírica O Avarento, de Molière. O resultado é uma obra profundamente pessoal – com um monólogo central no qual o personagem principal, aqui interpretado pelo barítono Sergei Leiferkus, transforma-se na mais perfeita e sombria tradução da ganância e da banalidade do acúmulo de capital, que transfigura uma possível visão de mundo.

3. Die Gezeichneten (Os Estigmatizados), de Franz Schreker

Nesta ópera de 1918, um homem deformado resolve construir um novo Elísium, uma terra idealizada – e no processo mostra a decadência da sociedade em meio a mudanças que ocorrem com enorme rapidez, deixando no ser humano a marca da desintegração associada a todo tipo de medo existencial.

4. Der Kaiser von Atlantis (O Imperador de Atlantis), de Viktor Ullmann

Viktor Ullmann escreveu suas três óperas no campo de concentração de Theresin, entre 1943 e 1944. Em uma delas, O Imperador de Atlantis, o protagonista declara guerra contra todo o mundo e declara como seu soldado principal a figura da Morte, que, ofendida com sua arrogância, resolve não mais executar seu dever.