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música degenerada

'entartete musik', a música censurada pelo regime nazista

Com recentes casos de censura pipocando pelo país, é sempre bom lembrar de duas exposições – a primeira dedicada às artes plásticas em 1937 em Munique, a segunda à música em 1938, em Düsseldorf – , nas quais o Terceiro Reich deixou bem claro seus critérios espúrios para julgar a arte moderna.

Pintores e compositores modernos foram indexados sumariamente e tiveram sua produção proibida a partir daquele momento.

A expressão em alemão é Entartete Musik ou Música degenerada. Era assim que os nazistas qualificavam – e proibiam – a música composta e/ou tocada por judeus. Muitos morreram em campos de concentração.

O saxofone foi destaque da exposição de Düsseldorf, por ser o instrumento mais execrado pelos nazistas – pela ligação com o jazz, a cultura afro-americana e a música de cabaré. Na entrada, um grande poster ridicularizava a ópera “Jonny spielt auf”, de Ernst Krenek, estreada doze anos antes na esfuziante República de Weimar. Ele mostra um negro empunhando um saxofone com a estrela de Davi na lapela:

Mais ainda que os negros, o alvo preferencial dos nazistas foram os judeus. Àquela altura eles já haviam perdido seus empregos nas orquestras sinfônicas. Mas não só judeus. Também os compositores que se solidarizaram com eles e tentaram manifestar suas posições publicamente.

Foi o caso, por exemplo, de Paul Hindemith, compositor que brilhou muito nos anos 1920 na Alemanha e ficou solidário aos judeus. Foi banido e teve de ir para os Estados Unidos.

Ouça sua Música de Câmara no. 1, composta em 1921, em plena República de Weimar, o período imediatamente pós-Primeira Guerra Mundial em que a Alemanha foi libertária, democrática, até a ascensão de Hitler ao poder em 1933. O tema inicial desta música é prefixo do programa de música contemporânea da Rádio Cultura FM de São Paulo que leva ao ar aos domingos, às 22 horas, obras interpretadas nos concertos da série de música contemporânea do Instituto CPFL de Cultura:

Outro compositor que morreu em campo de concentração foi Erwin Schulhoff (1894-1942).

Ouça esta “Hot Sonata”, de 1930. Ela tem todas as características da música que os nazistas odiavam e ao mesmo tempo faziam a alegria da moçada na noite berlinense: está bem próxima do swing do jazz norte-americano dos anos 30. O terceiro movimento é grotesco, com glissandi do sax parecidos com os do clarinete no início da “Rhapsody in Blue” de Gershwin, de 1924. Os intérpretes são: Leo van Oostrom ao sax-alto e Gerard Boushuisao no piano:

Hans Gál (1890-1987), austríaco, perdeu o emprego em Mainz e transferiu-se para a Inglaterra, onde morreu esquecido em 1987 aos 97 anos.

Experimenta discreto “revival” em gravações nos últimos anos. Este belo concerto para violoncelo, composto em 1944, quando já estava na Inglaterra e a Segunda Guerra atingia seu ponto mais cruel e devastador, foi gravado por dois músicos brasileiros com uma orquestra inglesa: Antonio Meneses foi o solista e Cláudio Cruz o regente, da Northern Sinfonia: