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três peças que unem o mundo esportivo e a música contemporânea

1. Jeux – Debussy (1912):

“Num parque, ao crepúsculo, uma bola de tênis escapou; um rapaz e em seguida duas moças a procuram. A luz de holofotes espalha na quadra uma luminosidade fantástica, lhes dá a ideia de jogos infantis; ora se encontram, ora desaparecem, ora se perseguem, ora discutem ou se entediam sem razão; a noite está amena, o céu banhado por suaves clarões, eles se abraçam. Mas o encanto é quebrado por uma outra bola de tênis lançada por não se sabe qual mão maliciosa. Surpresos e assustados, o rapaz e as moças desaparecem nas profundezas do parque noturno”.

Este é o tema do balé “Jeux” tal como o imaginou o coreógrafo e bailarino russo Vaslav Nijinsky. A música de Debussy é ao mesmo tempo um tributo à beleza da juventude, com toques eróticos muito sutis, quase imperceptíveis. São quase 20 minutos de música da melhor qualidade.

Pena que “Jeux” tenha estreado em 15 de maio de 1913, no mesmo Théâtre des Champs Elysées que receberia, duas semanas mais tarde, a estreia escandalosa da “Sagração da Primavera” de Igor Stravinsky. A Sagração eclipsou esta pequena obra-prima.

2. The Golden Age, de Dmitri Shostakovich (1906-1975):

Em 1929, quando estava com 23 anos e era a grande promessa da composição na recém-instituída União Soviética, Dmitri Shostakovich foi convidado a compor a música para um balé baseado em “Dynamiade”, de Alexander Ivanovsky. A ideia é que o tema esportivo seduziria Shostakovich, fanático por futebol e torcedor do time do Dinamo de Moscou. O compositor frequentava os campos de futebol e chegou a convidar o time do Dinamo, incluindo seu maior ídolo, o jogador mais famoso, o goleiro Lev Iashin, conhecido no mundo inteiro pelo apelido de “Aranha Negra” por seu uniforme todo preto.

A história e simples demais: numa cidade da Europa ocidental, acontece uma exposição industrial – a “Idade de Ouro”. Dois times de futebol visitam a exposição: um ocidental, fascista, a outra soviética. Os três atos do balé descrevem as aventuras dos boleiros soviéticos num universo hostil. É um confronto simbólico entre os mundos capitalista e comunista. Peça escancarada de propaganda do regime comunista. Você pode ouvir a música inteira, 37 números; ou então ficar só com o Tahiti Trott, o mais conhecido:

Íntegra do balé:

Ou então a suíte com a Orquestra Real de Estocolmo, regida por Gennadi Rozhdestvensky:

3. Sports et Divertissements

Em 1914, Lucien Vogel, publisher da “Gazette du Bon Ton”, encomendou uma obra sobre temas envolvendo a moda a Igor Stravinsky. Mas o russo ainda saboreava o sucesso escandaloso da “Sagração da Primavera”, ocorrida no ano anterior com os Ballets Russes em Paris. Recusou porque achou baixo o dinheiro oferecido. Vogel convidou então Satie, que também recusou, mas pela razão contrária: considerou o dinheiro oferecido alto demais. Aceitou somente quando Vogel concordou em reduzir o cachê. Eram 3.000 francos – algo que ele jamais recebera no passado nem receberia no futuro por alguma obra em sua vida.

A ideia era publicar um álbum especial de qualidade gráfica sofisticada. O título, Esportes e Divertimentos, evoca o slogan usado para atrair turistas para hotéis, e visava vender um estilo de vida sofisticado – do banho de mar ao tênis, do golfe ao iatismo, dos piqueniques às corridas de cavalos, da pesca ao carnaval.

Entendia-se também que estavam incluídos os chamados esportes sociais, como o flerte e a dança. O álbum combina peças para piano, textos, desenhos e grafismos e ilustrações em cores. O casamento perfeito entre artes visuais, o mundo “chic” da moda, os esportes e a música contemporânea. Uma obra-prima de humor e música de qualidade.

A primeira peça é um “Coral inapetitoso (sic)” que dedica “a todos os que não gostam de mim”. Entre os esportes musicalmente evocados em pequenas vinhetas estão o iatismo, as corridas, o tênis.