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o melhor de dois mundos (mas existem mesmo dois mundos?)

o pianista de jazz que reinventou a história da música

Aos 61 anos, o pianista norte-americano Uri Caine, uma das personalidades artísticas mais originais da cena musical contemporânea em todo o mundo, recria com o mesmo vigor e intensidade criativa, em recitais únicos, grandes obras-primas do cânone da música clássica, assinadas por Mahler, Mozart e Verdi, e também composições de John Zorn, um dos grandes nomes da vanguarda instrumental nova-iorquina, ou composições próprias.

Seu próximo CD, a ser lançado no final de 2017 ou início de 2018, traz composições inéditas para piano e quarteto de cordas, com o quarteto polonês Lutoslawski.

Caine possui uma sólida carreira internacional no domínio do jazz. Mas o vírus da inclusão musical já estava nele: num dos improvisos com seu trio jazzístico, Caine citou uma melodia de uma das sinfonias de Gustav Mahler. E o produtor Stefan Winter, fundador da Winter & Winter, gravadora independente de Munique, chamou a sua atenção para o fato.

Stefan acabara de dirigir um documentário sobre Mahler, e convidou Caine para compor uma trilha sonora. Foi o “start” para uma belíssima e original caminhada criativa, onde as obras de Mahler foram as primeiras, entre as dos grandes compositores clássicos, a constituir matérias-primas para extraordinárias recriações contemporâneas.

Corria o ano de 1997. Nas últimas duas décadas, a Winter & Winter, que mergulhou de cabeça em seu revolucionário projeto de redimensionar os grandes clássicos em linguagens musicais atuais, já lançou inúmeras gravações onde Caine explora obras-primas do grande repertório. Este percurso começou com o universo de Gustav Mahler. Ele retrabalha um movimento da “Sinfonia no. 1 – Titã” e o célebre “Adagietto” da Sinfonia no. 5, que o cineasta Luchino Visconti utilizou como trilha sonora de seu filme “Morte em Veneza”. E duas canções de ciclos famosos de obras originais para canto e orquestra.

Um passeio improvisado reinventa algumas das mais conhecidas melodias de Wolfgang Amadeus Mozart – como a marcha turca da sonata K. 331, o allegro da sonata K. 545, o molto allegro da Sinfonia no. 40 e a famosíssima ária da rainha da noite, da ópera “A Flauta Mágica”.

Em “Otello”, CD dedicado a Giuseppe Verdi, ele mistura algumas de suas mais belas árias devidamente reinventadas e as justapõe com algumas composições próprias.

ATENÇÃO: NÃO É CROSSOVER!

Esqueça o surrado “crossover”. Caine passa muito longe disso. E como ele consegue esta façanha? Simples. Estudou música clássica a sério desde os 7 anos de idade, na sua Filadélfia natal, com nomes ilustres como os pianistas Bernard Peifffer e Vladimir Sokolov, e com os compositores George Rochberg e George Crumb. Ao mesmo tempo, cresceu numa cidade onde o jazz é presença constante na paisagem cultural. É natural, portanto, que o jazz tenha atraído muitas de suas atenções desde a meninice.

Durante os anos de formação, as 24 horas dividiam-se assim: de dia, música clássica; à noite, o jazz. Ele foi pianista de inúmeros grupos de jazz enquanto concluía estudos musicais no Curtis Institute da Filadélfia, uma das melhores escolas de música do planeta.

Numa entrevista reveladora, Caine se autodefine desta maneira: “Quando você absorve uma porção de estilos musicais diferentes durante sua infância e adolescência, você vai tentar, mais tarde, tentar um jeito de sintetizar tudo isso em sua música. Olhe para os compositores clássicos que tentaram compor música espanhola ou pelo menos sua versão pessoal de uma música tida como exótica. É Debussy ouvindo uma orquestra javanesa de gamelões e dizendo ‘OK, isso mudou minha vida’. Não é preciso catalogar a música que você ouve. Eu não sou diferente dos outros. Há músicos que, de fato, preferem especializar-se num nicho – e eu acho isso ótimo. Mas as coisas não precisam ser necessariamente assim. E, cá entre nós, há uma longa tradição de músicos que combinam diferentes elementos do passado e do presente, sem limites geográficos, em sua música”.

Desde que se fixou em Nova York, no início da década de 80, Caine gravou dezenas de discos como líder. Ele se alterna entre registros mais decididamente jazzísticos, como “The Uri Caine Trio Live in Village Vanguard”, com os de recriação dos clássicos, como “The Uri Caine Ensemble Plays Mozart”.

Outras recriações antológicas e altamente provocadoras:

– Gustav Mahler: “Urlicht/Primal Light”, 1997;

– Richard Wagner: “Wagner e Venezia”, 1997;

– “Uri Caine Trio: Blue Wail”, 1998;

– “The Uri Caine Ensemble: Gustav Mahler in Toblach”, álbum duplo,
1999);

– Uri Caine Trio: “The sidewalks of New York: Tin Pan Alley”, 1999;

– Robert Schumann: “Uri Caine Ensemble: La Gaia Scienza/Love
Fugue”, 2000, onde alternam-se o ciclo de lieder “Dichterliebe” e
o quarteto para piano e cordas opus 47;

Tradução dos versos de Helma Haller:
não guardo rancor

Não guardo rancor,
Mesmo com o coração aos pedaços,
Amor eterno perdido,
Não guardo rancor.
Brilhando no esplendor de diamantes,
Não entra raio nas trevas do teu ser,
Há muito tempo o sei.
Não guardo rancor,
Mesmo com o coração aos pedaços.
Te vi no sonho

E percebi a noite em teu coração,
Eu vi a serpente a devorar teu ser,
Meu bem, a tua desdita.
Não guardo rancor.

– Johann Sebastian Bach: “Uri Caine Ensemble: The Goldberg Variations”

– Uri Caine/Rio: gravado no Rio de Janeiro, com Paulinho Braga (bateria),
Jorge Helder (baixo), Lulu Galvão e Jair Oliveira (violões), Cacau Gomes e
Cris Delanno (vozes) e bateria da Escola de Samba Unidos de Vila Isabel.

– “Uri Caine & Concert Köln: The Diabelli Variations” de Beethoven

– “Uri Caine: Dark Flame” (jazz, 2003).