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o tratamento de choque do pianista jeremy denk

duas versões magníficas de pierrot lunaire, de arnold schoenberg

Convidado por um jornal britânico a compor uma playlist, o pianista norte-americano de 47 anos chuta o balde e diz que é preciso salvar a música clássica de sua imagem. Ela é normalmente vendida às pessoas como “polida, segura, bonita”.

Quando você tem de aprender uma nova língua, Denk argumenta, tem de ficar horas e horas em cima de diálogos tatibitate de cartilhas – tipo “vovô viu a uva”. É um aprendizado, e às vezes duro. Daí suas cinco escolhas, que incluem algumas granadas e até – imaginem – música “bonita” e “polida” como o primeiro volume do “Cravo Bem Temperado! de Bach. Mas esta playlist só contém duas performances da mesma obra.

Primeiro, você confere uma versão de referência, cantada em alemão com legendas em italiano:

Pierrot Lunaire, de arnold schoenberg : Denk diz que foi despejado de seu quarto de estudante porque ouvia o tempo todo este “verdadeiro pesadelo” que marca a destruição do sistema tonal. Assista a uma performance hoje clássica, comandada por Pierre Boulez:

A segunda opção é bem brasileira. Foi apresentada no Instituto CPFL de Cultura, em Campinas, no dia 26 de novembro de 2016. O spalla da Osesp Emmanuele Baldini regeu um grupo de músicos e a soprano Manuela Freua em doze das 21 partes da revolucionária obra de Schoenberg. Só que cantada em bom português, numa versão histórica de Augusto de Campos, realizada nos anos 80.

Arnold Schoenberg (1874-1951) Doze das 21 canções do ciclo “Pierrô Lunar – trêrs vezes sete poemas de Albert Giraud” – recriação de Augusto de Campos da versão alemã de Otto Erich Hartleben:

1. Bêbado de Lua (Mondestrunken)
2. Colombina (Colombine)
6. Madonna (Madonna)
7. Lua Doente (Der Kranke Mond)
8. Noite (Nacht)
11. Missa Vermelha (Rote Messe)
14. As Cruzes (Die Kreuze)
15. Nostalgia (Heimweh)
17. Paródia (Parodie)
19. Serenata (Serenade)
20. Regresso (Heimfahrt)
21. Ó Velho Olor (O Alter Duft)

Emmanuele Baldini violino (Kurtag) e regência

Manuela Freua canto

Dana Radu piano

Dan Rafael Lira Tolomony violino

Clara Santos viola

Rafael Caboclo violoncelo

Patrick Viglioni clarinete

Savio Araujo flauta

Recriações de Augusto de Campos:

1. Bêbado de lua

o vinho que meus olhos sorve
a lua verte em longas ondas,
que numa enorme enchente solvem
os mudos horizontes
desejos pérfidos se escondem
no filtro do luar que chove,
o vinho que meus olhos sorvem
a lua verte em longas ondas
o poeta, no silêncio absorto,
absinto santamente absorve
e o céu é seu até que cai,
olhar em alvo, gesto tonto,
do vinho que meus olhos sorvem

2. Colombina

as flores-luz da Lua,
alvura luminosa,
florem na noite nua –
eu morro de brancura!
meu alvo é só seu alvo
busco num rio escuro
as flores-luz da Lua,
alvura luminosa
e só seria salvo
se o séu concedesse
o dom de ir desfolhando
à flor de teus cabelos
as flores-luz da Lua!

6. Madonna

paira,ó mãe do desespero,
sobre o altar destes meus versos!
sangue de teus magros peitos
o furor da espada verte.
tuas chagas vejo abertas
como olhos ocos, cegos.
paira, é mãe do desespero
sobre o altar destes meus versos!
e teus fracos braços server
o cadaver, membros verdes,
de teu filho ao universo –
mas o mundo se diverte
mais, é mãe di desespero.

7. Lua doente

Noturna, moritura Lua,
lá, no sem-fim do negro céu,
olhar de febre a vibrar
em mim, a qual rara melodia.
com infindável dor de amor
vais, num silente estertor,
noturna, moritura Lua,
lá, no sem-fim do negro céu.
o amante que teu brilho faz
sonâmbulo perambular,
na luz que flui vai beber
teu alvo sangue se esvai,
noturna, moritura Lua,

8. Noite

Cinzas, negras borboletas
matam o rubor do sol.
como um livro de magia
o horizonte jaz – soturno.
um perfume de encensório
sobe de secretas urnas,
cinzas, negras borboletas
matam o rubor do sol.
e do céu a revoar
revolvendo as asas lentas,
vêm, morcegos da memória,
invisíveis visitantes…
cinzas, negras borboletas

11. Missa vermelha

Cruel eucaristia;
ao cintilar dos ouros
ao vacilar das velas,
sobe ao altar – pierrô.
a mão, a deus devota,
rasgou o santo manto.
cruel eucaristia,
ao cintilar dos ouros
com gestos piedosos,
alça nos longos dedos
a hostia gotejante:
seu coração sangrando.
cruel – eucaristia.

14. As cruzes

cruzes santas são os versos
onde sangram os poetas
cegos, que os abutres bicam,
fantasmas esvoaçantes.
em seus corpos lentas lanças
banham-se no rio de sangue!
cruzes santas são os versos
onde sangram os poetas.
vem o fim – e findo o ato,
vai morrendo o pranto fraco.
longe põe o sol monarca
a coroa cor de lacre.
cruzes santas são os versos.

15. Nostalgia

um suspiro de cristal partido
traz da Itália velhas pantonimas
à memória: e Pierrô, tão seco,
faz virar sentimantal de novo.
no deserto de seu peito oco,
surdamente sobre os seus sentidos,
um suspiro de cristal partido
traz da Itália velhas pantonimas.
já perdeu Pierrô seus ares tristes,
pelo incêndio lívido da Lua,
pelos mares mortos da memória,
vai soar, além, num céu longinquo,
um suspiro de cristal partido.

17. Paródia

Agulhas pisca-pisca
no seu cabelo gris,
a dama murmureja,
vestida de cetim.
espera na varanda
o seu Pierrô perverso,
Agulhas pisca-pisca
no seu cabelo gris,
mas ouve-se um sussurro.
um riso risca a brisa:
a Lua, atriz burlesca,
imita com seus raios
agulhas pisca-pisca.

19. Serenata

mil grotescas dissonâncias
faz Pierrô numa viola
sobre um pé, como cegonha,
ele arranha um pizzicato,
logo vem Cassandro, tonto
com o estranho virtuose
mil grotescas dissonâncias
faz Pierrô numa viola.
da viola já se cansa,
com os delicados dedos
pega o velho pela gola
e viola o crâneo calvo
mil grotescas dissonâncias

20. Regresso

A Lua é o leme
nenúfar o navio:
com vento em sua vela
Pierrô vai apra o sul.
o mar sussurra escalas
e embala a nave leve,
A Lua é o leme
nenúfar o navio.
a Bérgamo, vogando,
vai Pierrô volver.
já teme no oriente
o verde horizonte
A Lua é o leme.

21. Ó velho olor

Ó velho olor dos dias vãos,
penetra-me nos meus sentidos!
idéias doidas a dançar
revêm no leve ar.
um sonho bom me faz sentir
memórias que me abandonaram
Ó velho olor dos dias vãos,
penetra-me nos meus sentidos!
toda a tristeza se desfaz.
pela janela iluminada
eu vejo a vida que me vê
sonhas além a imensidade…
Ó velho olor dos dias vãos!