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os pássaros muito além de hitchcock

desde vivaldi e rameau, no século 18, os compositores se encantaram com os cantos de pássaros. a paixão permanece no século 21.

Os pássaros sempre fascinaram os compositores. Uma paixão que vem de séculos e permanece, no século 21, como um dos motores da criação musical contemporânea.

1. Antonio Vivaldi (1678-1741), no século 18, imitou o cuco em seu célebre concerto para violino, cordas e baixo contínuo em lá maior RV 335, apelidado “O Cuco”: A execução é de um dos maiores violinistas italianos atuais, Giuliano Carmignola, ao lado do grupo I Sonatori della Gioisa Marca:

2. Ainda no século 18, o francês Jean-Philippe Rameau (1683-1764) compôs uma curta peça original para cravo “Le Rappel des Oiseaux”, a reunião dos pássaros. A versão escolhida é interpretada ao piano, com a notável pianista francesa Marcelle Meyer (1897-1957):

3. Já no século 20, Igor Stravinsky compõe seu “Pássaro de Fogo”, música para a coreografia de Mikhail Fokine, com o célebre bailarino russo Vaslav Nijinsky (1889-1950) encarnando o personagem-título do conto popular russo: “um pássaro maravilhoso, todo de ouro e fogo”. Foi a estréia parisiense do jovem Stravinsky, recém-chegado de Moscou. A versão escolhida reproduz a coreografia da estreia da obra, em 1910, pelos Balés russos comandados pelo empresário Serge Diaghilev:

4. Ainda de Stravinsky, outra música para os Balés Russos de Diaghilev. Desta vez, “O Rouxinol”, baseado no conto infantil de Andersen. Estreou em 1919 em Genebra, na Suíça, com coreografia de Leonide Massine. A versão escolhida é espetacular: a personagem principal é encarnada pela soprano francesa Natalie Dessay, 52 anos; James Conlon rege coros e Orquestra Ópera Nacional da França:

5. Olivier Messiaen, o compositor francês que morreu em 1992 aos 84 anos, costumava dizer que os pássaros são os primeiros e maiores cantores do mundo. A paixão pelos pássaros o levou a estudar ornitologia e em mais de 200 cadernos anotou os cantos de 700 espécies diferentes. Compôs “O Catálogo dos Pássaros”, ciclo para piano de quase 3 horas de duração registrando e desenvolvendo criativamente o canto de treze espécies de pássaros nativas das várias regiões francesas. Numa de suas obras, “Le Réveil des Oiseaux”, o despertar dos pássaros, para piano e orquestra, do início dos anos 1950, ele aconselha ao pianista que irá executá-la realizar antes passeios pela floresta. Aos organizadores do concerto de estreia, pediu por escrito: “Não coloque nenhuma biografia e nenhuma consideração humana em meu texto analítico: eu desejo desaparecer diante dos pássaros”.

6. Ainda Messiaen: em seu “Quarteto para o fim dos tempos”, composto em 1940 num campo de concentração na Silésia, em 1940 e lá estreado em precárias condições, ele incluiu um movimento para clarinete solo intitulado “O abismo dos pássaros”. Foi a primeira vez que incorporou cantos de pássaros em sua obra. Na versão escolhida no youtube, quem toca é o clarinetista francês Paul Meyer, de 52 anos:

7. Dois compositores, um finlandês, outro inglês, incorporaram os próprios cantos de pássaros gravados na natureza em suas obras. O primeiro, o finlandês Einojuhani Rautavaara (1928-2016), intitulou “concerto para pássaros e orquestra” o seu “Cantus Arcticus”, op. 61. Além de 8 sinfonias e 8 óperas, escreveu 11 concertos, dos quais o mais original é este, para pássaros e orquestra, de 1972. O destaque são as gravações que coletou nos pântanos da Lapônia e de Liminka. Em estúdio, ele aqui e ali modificou eletronicamente o canto dos pássaros. Na primeira pauta do solo de flauta que abre a obra, ele pede explicitamente ao solista: “pense no outono e em Tchaicovsky”. A versão escolhida é da Orquestra da Rádio Alemã de Saarbrücken, regida por Christoph Poppen.

8. O segundo a incorporar os cantos de pássaros em sua obra foi o inglês Jonathan Harvey (1939-2012). Ele estudou em Paris, no IRCAM de Pierre Boulez, mas sempre manteve um pé no hinduísmo. Ao contrário de Rautavaara, cuja música soa fácil e bela, a de Harvey apresenta um profundo trabalho de manipulação dos sons.

Seu “Concerto para Pássaro com canção de piano” é de 2003 e constitui uma séria exploração das canções dos pássaros. Aqui, 40 diferentes cantos são captados na natureza, na Califórnia, nos Estados Unidos. Harvey os manipula por meio de um sintetizador. A obra exige que o pianista manipule o sintetizador em tempo real e ao mesmo tempo toque piano. A versão escolhida conta com o pianista Hidéki Nagano, integrante do célebre Ensemble InterContemporain de Paris. David Atherton rege a London Sinfonietta.