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por que villa-lobos é o maior compositor das américas

uma playlist feita a partir de textos do escritor alejo carpentier

Villa-Lobos adorava o modo como Alejo Carpentier (1904-1980), escritor cubano nascido na Suíça, definia sua música.

Carpentier era presença freqüente nas famosas feijoadas parisienses que o compositor brasileiro bancava no período em que morou na França a partir de 1923. Disse a seu respeito num artigo de 1928: “Villa-Lobos é um dos poucos de nossos artistas que se orgulham de sua sensibilidade americana, e não tratam de desnaturalizá-la. É uma palmeira que pensa como uma palmeira, sem sonhar com pinheiros nórdicos”.

Outra observação deliciosa de Carpentier sobre o jeitão de Villa-Lobos de entrar em várias conversas ao mesmo tempo compara-o a um grande mestre de xadrez enfrentando vinte jogadores ao mesmo tempo. A mesma impressão teve o jovem Tom Jobim em 1956, quando conheceu o compositor em sua casa. Ele repetiu várias vezes o episódio: uma soprano cantava a plenos pulmões, o rádio estava ligado e as pessoas conversavam animadamente. Num canto, Villa escrevia em uma folha pautada. Tom perguntou-lhe se o barulho o incomodava: “Meu filho, o ouvido de fora nada tem a ver com o de dentro”.

A relação entre Carpentier e Villa-Lobos foi muito forte. Influenciou o escritor famoso, a ponto de influenciar bastante sua atividade como crítico musical ao longo de várias décadas. Villa era o modelo do compositor para Carpentier. Quando se exilou entre 1945 e 1959 em Caracas, na Venezuela, ele intensificou ainda mais a crítica musical. E lá, no jornal El Nacional, escreveu muito sobre música e músicos.

Na passagem dos 70 anos de Villa-Lobos, ele indicou as criações que mais amava entre as mais de mil assinadas pelo brasileiro: “O mestre brasileiro é o compositor mais universal que a América nos deu (…) A nacionalidade de Villa se manifesta em tudo o que cria. O acento racial se evidencia na inflexão melódica; na vitalidade rítmica; no uso copioso, em suas partituras, de instrumentos de percussão, ou de efeitos percussivos metaforicamente obtidos com outros elementos da orquestra”.

Abaixo, as obras-chaves de Villa segundo Carpentier:

Choros no. 7 com Ensemble OCAM-USP

“Quando todos os compositores europeus se dedicavam a escrever para pequenos conjuntos buscando uma nova manipulação de sonoridades, Villa, atento à preocupação geral, compôs esta autêntica obra-prima, o Choros no. 7 (1924), onde esta questão se coloca e é resolvida com magistral”:

Choros no. 4: Com Rafael Oliveros (trompa – Venezuela), Jônatas Nascimento (trompa – Brazil), Alessandro Gornati (trompa – Italy) e Miriam Raspe (Trombone – Germany)

“Antecipando-se a algumas pesquisas atuais [Carpentier escreve em 1957], Villa-Lobos explorou peças para conjuntos instrumentais inusitados: grupos de metais, como o Choros no. 4, ou conjunto de violoncelos como em várias Bachianas Brasileiras”:

Bachianas Brasileiras no. 1 (1930): Introdução (Embolada) Com os 12 violoncelistas da Filarmônica de Berlim

Bachianas Brasileiras no. 5 (1938) para voz e orquestra de violoncelos: Com soprano Ana Maria Martínez, Filarmônica de Berlim, regência de Gustavo Dudamel

“Nonetto, impressão rápida de todo o Brasil”, para coro, conjunto de câmara e percussão (1923): Com grupo de músicos brasileiro regido por Gil Jardim

“Quando Milhaud [Darius Milhaud, 1892-1974], Schoenberg [Arnold Schoenberg, 1874-1951] e Stravinsky [Igor Stravinsky, 1882-1971] buscavam novas maneiras de relacionar a voz com a atividade instrumental, Villa-Lobos dava suas próprias respostas para o problema compondo o Nonetto”:

Missa de Sâo Sebastião (1937) para coro a 3 vozes: Registro histórico da Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro, regida por Cleofe Person de Mattos

“Seus colegas compositores descobriam alguma inflexão gregoriana em certos cantos populares? Villa-Lobos demonstrava, com sua Missa de São Sebastião, que estas inflexões podiam ser encontradas igualmente nos hinos rituais dos negros do Brasil”:

Carpentier: “Em 1930, Villa-Lobos me mostrou, rindo, um artigo de um bilioso crítico de um crítico francês onde se lia: ‘O senhor Villa-Lobos faz conosco o mesmo que os mouros no Marrocos: mata-nos com nossos próprios canhões’. Pode-se responder que, neste caso, os canhões são de fabricação brasileira… Nacionalista é Villa-Lobos, por convicção, idiossincrasia e temperamento. Mas sua universalidade deve-se, acima de tudo, ao fato de sua obra sempre ter respondido às exigências técnicas da época – às problemáticas musicais de seu tempo”.

[As frases de Carpentier aqui citadas pertencem a artigo publicado no jornal El Nacional de Caracas, no dia 11 de julho de 1957, publicado no livro “Esse músico que llevo dentro”, pgs. 49/50, volume X da edição de suas obras completas, Siglo Veintiuno Editores, 1987].