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um entre vários ‘selfies’ de uma guerra de muitos rounds

os dois maiores compositores do século 20 só se encontraram uma vez e jamais se entenderam

O austríaco Arnold Schoenberg (1874-1951) e o russo Igor Stravinsky dominaram como pólos opostos a música e a vida musical do século 20. O primeiro, revolucionário, abandonou a tonalidade, adotou o atonalismo e em seguida a música dodecafônica (feita a partir de séries dos 12 semitons da escala cromática).

Já Stravinsky espantou o mundo ocidental com a construção em blocos sonoros e uma polirritmia inovadora em sua “Sagração da Primavera”, de 1913.

Mas, ao contrário de Schoenberg, Stravinsky recuou estilisticamente no período entre-guerras mundiais: propôs o retorno à música do século 18, num movimento que foi chamado de neoclassicismo. Enquanto isso, Schoenberg e seus ex-alunos Alban Berg e Anton Webern continuavam em sua trilha radical.

As críticas à sonata de Stravinsky foram calorosas, embora reconhecendo que na sonata ele recorre à música de Bach e Beethoven como modelos formais. Já a Serenata foi duramente criticada, por suas dissonâncias – algo que hoje soa até agradável a nossos ouvidos do século 21.

Na verdade, Schoenberg só tomava pauladas da crítica europeia desde que adotou o atonalismo, por volta de 1908/9 em Viena. Vendo a hostilidade da vida musical tradicional se ampliando em torno dele, acabou identificando em Stravinsky seu maior inimigo.

Eles emigraram quase ao mesmo tempo para os Estados Unidos, fugindo do nazismo; moraram por anos, na década de 1930 e 40, na mesma cidade, Los Angeles, e a poucos quilômetros de distância. Mas jamais se cruzaram. Schoenberg morreu em 1951. Stravinsky, vinte anos depois, quando praticava – acreditem – justamente a música dodecafônica pela qual seu maior inimigo musical tanto trabalhou a vida inteira.

Em Veneza, no Festival de Música Contemporânea no Teatro La Fenice, entre 3 e 8 de setembro de 1925, os dois quase se esbarraram, mas não cruzaram.

No mesmo Festival, Schoenberg regeu sua encorpadíssima Serenata, op. 24. Ambos receberam, cada um, o mesmo cachê: 5.000 francos, Stravinsky por 8 minutos de performance ao piano de sua sonata, Schoenberg pela regência de um grupo de câmara numa obra de quase 40 minutos.

Ouça abaixo a sonata de Stravinsky com Mikhail Pletnev:

E agora a Serenata de Schoenberg, numa versão histórica regida pelo compositor italiano Bruno Maderna: