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popularerudito, eruditopopular (e vice-versa): 2º round | negrophilia

um cursinho rápido de sete aulas - ou melhor, rounds - sobre as guerras entre popular e erudito no século 20 para você se movimentar com clareza no infinito universo das músicas que nos rodeiam 24 horas por dia.

confira o 1º round do embate entre música popular e música erudita no século 20, baseado no livro ‘between montmartre and the mudd club: popular music and the avant-garde‘ de bernard gendron aqui.

SEGUNDO ROUND: “NEGROPHILIA”

Igor Stravinsky, Darius Milhaud, Maurice Ravel, Claude Debussy – estes são apenas alguns dos maiores criadores eruditos do século 20 que flertaram com as músicas negras (o fenômeno foi alcunhado de “negrophilia”). Mas a idéia era tomar uma escala aqui, as blue notes ali, de empréstimo, como ameixas pretas a enfeitar um consistente pudim de coco bem branco.

Stravinsky, por exemplo, compôs, entre outras peças, um “Ragtime” dentro de sua obra “História do Soldado”; Milhaud, além do flerte com o jazz, namorou firme com a música brasileira, por conta de sua estada no Rio de Janeiro em 1917, como assistente do embaixador francês no Brasil, o poeta Paul Claudel. Compôs “O Boi no Telhado” sobre temas populares brasileiros.

Este comportamento, Gendron qualifica como “práticas estéticas secundárias”, ou seja, “atividades estéticas que os artistas não consideravam originalmente parte de sua ‘obra real’, mas que tiveram considerável impacto no modo como a chamada ‘obra real’ foi recebida”.

Além dos citados, ele lembra dos posters de Toulouse-Lautrec para o Moulin Rouge, os poemas modernistas que viraram letra das “chansons” dos cabarés artísticos. “As práticas estéticas secundárias operam tipicamente nos vazios entre a alta e a baixa cultura, ligando os produtos primários mais austeros, como as pinturas abstratas e a poesia experimental ao espalhafatoso mundo da cultura de massa”.

Ou seja, não é de hoje que os praticantes da alta cultura tratam de criar subprodutos mais palatáveis, a fim de viabilizar sua subsistência e ao mesmo tempo legitimar-se junto à turma do andar de baixo. Mas esta postura embute riscos. Os eruditos agiram mais ou menos, mal comparando, como o general-presidente Geisel e seu processo de “distensão lenta e gradual” no Brasil dos anos 70.

A alta cultura, para se proteger, tratou de assimilar detalhes interessantes das músicas populares para ampliar sua representatividade, mas deu com os burros n’água, pois de fato entrou na seara popular. Daí por diante, o jogo seria outro.

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