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popularerudito, eruditopopular (e vice-versa): 4º round | capital cultural

um cursinho rápido de sete aulas - ou melhor, rounds - sobre as guerras entre popular e erudito no século 20 para você se movimentar com clareza no infinito universo das músicas que nos rodeiam 24 horas por dia.

confira os outros artigos sobre os embates entre música popular e música erudita no século 20, baseado no livro ‘between montmartre and the mudd club: popular music and the avant-garde‘ de bernard gendron:

1º round

2º round

3º round

quarto round: capital cultural

Em texto inédito, Gendron tenta responder à questão “por que o jazz perdeu para o rock’n’roll”: “Em 1961, o jazz parecia ter encontrado um nicho confortável, com estudantes universitários, intelectuais, cantores urbanos brancos e negros, artistas e boêmios gravitando em torno dele. Era um antídoto às obviedades das 40 mais do rádio.

Entre 1955 e 1961, era rito de passagem da adolescência para a idade adulta – especialmente entre os universitários – abandonar o rock’n’roll pelos aparentemente mais sofisticados e esteticamente satisfatórios prazeres do jazz.

Mas em seis anos o jazz perdeu quase toda a sua base jovem para o rock’n’roll. E jamais se recuperou, desde então”. Tudo bem. Mas sua legitimação como “a música clássica dos Estados Unidos” rendeu-lhe centenas de departamentos de jazz incrustados nas universidades norte-americanas, além da sacralização definitiva como corpo estável do Lincoln Center em Nova York, liderado pelo notável trompetista Wynton Marsalis, com direito a orquestra permanente e temporadas próprias.

Mas o jazz não perdeu popularidade para o rock porque tenha se tornado desinteressante. Pelo contrário, nos anos 60, ele empunhou a bandeira da igualdade racial, dos movimentos políticos de esquerda, etc.,etc. Ganhou prestígio, mas prestígio, lembra Gendron, “também implica ganhar lugar de destaque no museu”. Ele vai mais longe: “é menos uma questão econômica, de vender mais ou menos discos, do que de capital cultural. O fato é que o rock ultrapassou o jazz na aquisição de capital cultural”.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu nos ensinou a pensar em poder cultural – e é disso que trata o livro de Gendron, da tomada do poder cultural pela música popular ao longo do último século – do mesmo jeito que pensamos em poder econômico. Ou seja, o capital cultural é representado pela posição que se ocupa nas instituições culturais, pela educação e autoridade estética, pelo grau de aprovação de uma obra pelas autoridades culturais, etc. “Alguns tipos de música popular, o rock e o jazz em particular, subiram dramaticamente, do seu nascimento até hoje, na hierarquia cultural”, indica Gendron.

A aprovação crítica, o respeito, a canonização – tudo isso são metas cobiçadas até pelos que se preocupam basicamente com o sucesso comercial. “Aliás”, exemplifica, “músicos que tiveram sucesso comercial consistente durante longos períodos tendem a adquirir respeitabilidade apenas em função dessa longevidade – Sinatra e os Beatles, por exemplo”.

Isso pode soar exagerado, já que os citados constituem exemplos do melhor que a música popular produziu ao longo do século 20. É que, diz Gendron, “os mercados de capital econômico e capital cultural nas artes elevadas e populares estão firmemente emaranhados”. Mas, por outro lado, a música popular atingiu tamanha massa crítica em seu próprio poder cultural que não precisa mais de alianças com a alta cultura para se alavancar. Na competição entre a música popular e a arte elevada, a música popular venceu, não ultrapassando em altura a música elevada, mas tornando-a menos revelante, do ponto de vista cultural.

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