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popularerudito, eruditopopular (e vice-versa): 5º round | aprendendo com os beatles

um cursinho rápido de sete aulas - ou melhor, rounds - sobre as guerras entre popular e erudito no século 20 para você se movimentar com clareza no infinito universo das músicas que nos rodeiam 24 horas por dia.

confira os outros artigos sobre os embates entre música popular e música erudita no século 20, baseado no livro ‘between montmartre and the mudd club: popular music and the avant-garde‘ de bernard gendron:

1º round

2º round

3º round

4º round

quinto round: aprendendo com os beatles

Em outubro de 1967, o crítico literário Richard Poirier causou frisson nos círculos intelectuais internacionais com um ensaio que analisava de modo reverente letras e músicas de canções dos Beatles. O título, “Learning from the Beatles”, chocou tanto quanto a revista que o publicou, “Partisan Review”, durante décadas conhecida justamente como uma das representantes elitistas mais ferozes da linha de frente de ataques à cultura de massa.

Começava ali o processo de canonização e absorção dos Beatles pela chamada alta cultura. Nos Estados Unidos, consagrou-se a divisão da cultura em três expressões bem conhecidas: “highbrow” para a alta cultura; “middlebrow” para a cultura refinada porém menos restrita; e “lowbrow” para o povão em geral. Musicalmente, os extratos podem ser assim exemplificados: música erudita é highbrow; jazz e rock criativo do nível de Zappa é middlebrow; e lowbrow é country/western pra eles, breganejo pra nós.

O efeito cascata foi imediato. Depois do artigo da highbrow Partisan Review, a imprensa middlebrow, do New York Times à New Yorker, abençoou os novos canonizados. Em três anos, de 1964 a 1967, os quatro rapazes de Liverpool saíram de condição de interessantes, mas sem talento, para a de revolucionários do século. A beatlemania que se seguiu – “Somos mais populares que Jesus Cristo”, dizia Lennon – levou até gente respeitável do mundo erudito, como o musicólogo Joshua Rifkin, um especialista em Bach, a cometer uma atrocidade, um lixo chamado “The Baroque Beatles Book”, onde ele regia com seu grupo barroco peças “descobertas” por ele com títulos como “The Royale Beatleworks Musicke”, “Epstein Variations” ou “Last Night I Said… Cantata para o terceiro Sábado depois do Shea Stadium”.

Nos anos 70, o processo se completou de modo fulgurante – ao menos para os lados da música popular. No célebre Mudd Club — e num momento em que havia até quem declarasse morta a pintura — , a música popular, por meio de grupos como Talking Heads, Television, Devo, B-52, e até os Ramones, impunha-se como matriz revitalizadora das artes plásticas. Jean-Michel Basquiat morto de overdose aos 28 anos em 1988, era a estrela do Mudd Club, expondo seus quadros e tocando com seu grupo new wave Gray.

“No final dos anos 70, a subcultura rock new wave tinha suficiente capital cultural para ditar condições de engajamento com o mundo da arte. Assim emergiram clubes fundindo punk e disco com as artes performáticas e a pintura. O Mudd Club lembra, claro, os cabarés de Montmartre do final do século 19”.

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