ciclo virtuoso: de bach a villa-lobos (e vice-versa)

multiplicidade e diversidade pautam uma linguagem original no diálogo entre o passado europeu e nossas manifestações regionais

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Nos anos 1930, Heitor Villa-Lobos iniciou o trabalho nas Bachianas Brasileiras. O ciclo tinha como inspiração a música de Bach, ou melhor, a possibilidade de justapor elementos da música folclórica brasileira ao universo do compositor alemão, que ele tratava como “manancial folclórico universal”.

O ciclo se insere em um momento histórico específico – o do neoclassicismo e do retorno às formas do passado que orientou, nos anos 1920, diversos autores, como o russo Igor Stravinsky.

Mas as Bachianas extravasaram as condições de seu nascimento. Nelas, afinal, está sintetizada uma questão-chave da criação chamada “erudita” nacional no século 20: como conciliar a relação entre as formas herdadas do passado europeu e o olhar às manifestações regionais na busca por uma linguagem original?

Em pleno século 21, se a questão permanece, a resposta a ela já não precisa assumir ares definidores de uma estética a ser seguida. Pelo contrário, por trás dela estão múltiplos diálogos possíveis, que apontam acima de tudo para a diversidade de referências que devem ser levadas em conta na compreensão de nossa identidade. Multiplicidade e diversidade que estão representadas não apenas no trabalho dos autores mas também na linguagem pessoal dos intérpretes – e que pautam esse módulo.

A pianista Sonia Rubinsky, que já gravou a integral de Villa-Lobos e hoje se dedica à obra de Bach, explora em seu recital as relações possíveis entre os dois autores, buscando no brasileiro elementos da obra do compositor das Paixões. O duo de voz e piano de Ana Lucia Benedetti e Rafael Andrade, dois jovens expoentes do universo lírico no país repassa o rico universo das canções de arte, gênero em que é evidente a influência da música popular em alguns de nossos principais autores do século 20.

As duas outras apresentações percorrem o caminho contrário. Amilton Godoy e Gabriel Grossi buscam os elementos populares da pesquisa que conduziu Villa-Lobos em seu processo criativo.

E, se Villa se debruçou sobre o universo popular para criar obras ditas eruditas, Neymar Dias relê o cânone bachiano a partir das sonoridades da viola caipira, fechando um círculo virtuoso no qual o diálogo, acima de tudo, se traduz em música.

joão luiz sampaio

jornalista e crítico musical

Concertos

villa, bach e até beatles na viola caipira de neymar dias

neymar dias é um dos grandes instrumentistas da cena brasileira atual. tanto é excelente no contrabaixo quanto na viola caipira. em sua apresentação no instituto cpfl de cultura, em campinas, em setembro passado, ele interpretou suas transcrições de obras de bach e villa-lobos; e, acompanhado pelo contrabaixo de igor pimenta, revisitou algumas das mais belas canções dos beatles.