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uma “love story” entre o violino e a viola

é o que propõe o compositor checo leos janacek no quarteto de cordas “sonata a kreutzer”

a música em princípio é abstrata. mas sempre é possível “ler” nas entrelinhas de uma partitura musical. principalmente quando o próprio compositor trata de deixar bem claro que teve uma motivação extramusical para compor a obra. é o caso de várias obra-primas do repertório para quarteto de cordas do século 20.
você vai conhecer agora uma das mais belas: o primeiro quarteto de cordas composto pelo checo leos janacek (1854-1928), que ele mesmo intitulou “sonata a kreutzer”, referência explícita à novela curta de leon tolstói.
de fato, janacek acrescentou mais um dado no fascinante jogo de espelhos que (des)orienta músicos, compositores e escritores desde que beethoven chamou de “sonata a kreutzer” sua nona sonata para violino e piano, em 1803.
o grande escritor russo tolstói viu nela o símbolo da corrupção moral no casamento, em sua novela famosa publicada em 1889 que conta o final trágico de um triângulo amoroso entre o jovem violinista e a esposa pianista de um oficial russo, flagrados tocando sensualmente… o fogoso, incendiário adagio sostenuto – presto da “sonata a kreutzer” de beethoven:

e em 1923, o compositor checo leos janacek, então com 69 anos e vivendo uma paixão quase nabokoviana por kamila, de 25, debruçou-se sobre a novela de tolstói e compôs um quarteto de cordas intitulado “sonata a kreutzer” em que absolve a mulher adúltera. ele praticamente conta uma “love story” entre o primeiro violino e a viola, que personificam o trágico casal. mas ele absolve e exalta a mulher adúltera. por um motivo simples: ele deixara naquele momento mulher e filhos para viver a paixão fulminante kamila, 38 anos mais jovem, que fez este gênio louco de amor escrever um punhado de grandes obras nos seus dez anos finais de vida.
confira este lindo e amoroso quarteto que é uma declaração de amor musical a kamila, com o excepcional quarteto hagen:

gostou? então ouça também o quarteto no. 2, que janacek compôs no ano de sua morte, 1928, e chamou de “cartas íntimas”.
ele escreveu as seguintes palavras a sua amada kamila: “comecei a escrever algo muito belo. irá contar a nossa vida. vou chamar a peça de ‘cartas de amor’. um único instrumento será o seu intérprete durante toda a obra: a viola d’amore (instrumento de 6 ou 7 cordas, da família dos violinos, violas, cellos e contrabaixos, muito popular no barroco, principalmente nos países do leste europeu, onde se situava a ex-checoslováquia). como estou contente! estarei aí sozinho com você. mais ninguém…”