divulgação
blog > uma música que tem o efeito de uma granada

uma música que tem o efeito de uma granada

sábado (24/06) às 20h com a interpretação da pianista karin fernandes

Em 1975, o governo norte-americano selecionou artistas para criar e/ou encomendar obras comemorativas dos 200 anos da revolução americana de 1776. Ao escolher Frederic Rzewski para o seu projeto comemorativo, a pianista Ursula Oppens recebeu não uma peça, mas um ciclo ainda mais vasto de 36 variações para piano.

E, talvez sem saber, detonou um processo virtuosamente agudo: Rzewski acabara de assistir a um show do grupo folclórico chileno Quilapayún. Lá ouviu a canção de luta de Sérgio Ortega “O povo unido jamais será vencido”, que embalou a resistência durante os anos de chumbo na América Latina, incluindo o Brasil.

Ursula pediu-lhe uma pecinha para afagar a independência americana… e Rzewski devolveu-lhe um petardo, uma granada desmontando a tese da abstinência dos EUA em relação às ditaduras latino-americanas (ao contrário, sua interferência derrubou Allende no Chile e também foi decisiva em outros episódios cruéis em outros países do continente naqueles tempos sombrios).

Rzewski é ainda mais emblemático porque a música política está inscrita no seu DNA. E faz isso sem abdicar do melhor de sua invenção. Habitualmente, os compositores engajados na luta política – um fenômeno que se encorpou durante os anos 70 e 80 do século 20 – separavam suas criações: de um lado, a invenção experimental; de outro, as peças fáceis engajadas.

Com frequência Rzewski também faz isso. Mas nestas variações, que serão interpretadas pela primeira vez por uma pianista brasileira, ele colocou o melhor de sua invenção no piano. E a ele recorreu para quebrar rótulos, convenções e protestar.

Pois é, o mundo cabe nas 88 teclas, como diz pouco antes de morrer o pianista Daniel Boodmann T. D. Novecento, personagem do excelente livro de Alessandro Baricco que passou a vida inteira num navio de turismo, genialmente transformado em filme por Giuseppe Tornatore (“A lenda do pianista do mar”, de 1998):

“As teclas começam. As teclas acabam. Você sabe que há 88, sobre isso ninguém pode se enganar. Não são infinitas. Você é infinito, e, dentro destas teclas, é infinita a música que você pode criar”.